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Suplementos de cálcio e vitamina D não evitam problemas ósseos, diz estudo com 154 mil pessoas

Suplementos de cálcio e vitamina D não evitam problemas ósseos, diz estudo com 154 mil pessoas
Idosos têm maior propensão a fraturas graves após quedas, devido a fragilidade óssea (Designed by Freepik/Freepik)



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“Durante muitos anos, o cálcio e a vitamina D entravam automaticamente na receita do idoso. No consultório, era questionado: ‘você já toma cálcio e vitamina D? — Ah, não? Pois, tem que tomar!’” lembra o ortopedista João Polydoro, médico do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

A lógica por trás disso é que os ossos se enfraquecem com a idade, enquanto esses nutrientes os fortalecem. Logo, todo idoso deveria dar um gás nas taxas para evitar osteoporose, fraturas ou quedas, certo? Errado.

Já faz um bom tempo que essas ideias têm sido questionadas. E, agora, a ciência acaba de jogar a última “pá de terra” nesse mito.

Uma revisão detalhada das evidências mais recentes, publicada nesta quarta-feira (20) pela revista The British Medical Journal (BMJ), uma das mais conceituadas do mundo, prova que suplementos de cálcio, vitamina D ou os dois juntos oferecem pouco ou nenhum benefício para a prevenção de fraturas e quedas para a grande maioria dos idosos.

Faz sentido, afinal, o corpo já se abastece desses nutrientes pela alimentação e pelo sol. E tomar o que não faz falta não só é inútil como pode trazer efeitos indesejados.

A exceção fica para quem tem déficit nutricional ou alguma doença. “Se o idoso não tem deficiência desses nutrientes e nem osteoporose já diagnosticada, simplesmente tomar o suplemento não reduz riscos”, reforça Polydoro.

O que o estudo descobriu

Apesar das ressalvas já existentes, ainda há muitos médicos, especialmente nas redes sociais, que recomendam o uso das pílulas para todas as pessoas com mais de 60 anos, o que levanta muita confusão.

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Para abordar essa incerteza, os pesquisadores canadenses vasculharam 69 ensaios clínicos randomizados — o padrão ouro da ciência médica — somando quase 154 mil adultos participantes ao todo.

Esses estudos observavam os efeitos da suplementação contra fraturas gerais ou específicas, como as de quadril, além de quedas.

A maior parte dos voluntários dessas pesquisas eram indivíduos que não tinham um alto risco de fraturas ou quedas; e eles passaram por um acompanhamento médio de dois anos.

Entre esse público, em quase todos os cenários, o veredicto foi o mesmo: os suplementos não fizeram diferença relevante.

Suplementos são importantes, só não para todos

Apesar dor resultados, nem tudo é absoluto.

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No artigo, os próprios pesquisadores reconhecem que algumas análises incluíram um número reduzido de participantes, o que indica que é necessária cautela ao interpretar os dados.

Eles lembram que os resultados podem não se aplicar a indivíduos com distúrbios ósseos específicos ou àqueles que recebem tratamento medicamentoso para osteoporose.

Mas o ponto é exatamente fugir das generalizações. “É importante entendermos que o que está sendo questionado é a indicação de que todo idoso deve tomar cálcio e vitamina D, do contrário ele irá cair e ter fraturas”, pondera Polydoro. “Isso não é verdade“, afirma.

“No entanto, esses nutrientes seguem importantes para a fisiologia óssea. O que muda é que agora queremos evitar a prescrição indiscriminada de suplementos“, alerta.

Para entender isso melhor, vale pensar que o osso é feito, em 80%, de um mineral chamado hidroxiapatita, uma combinação de cálcio, fósforo e magnésio que dá rigidez à estrutura.

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Para formá-la, o corpo também precisa de vitaminas, especialmente a D, que conduzem o processo de mineralização.

É por isso que esses nutrientes são tão necessários, como explica Frederico Barra, presidente do Comitê de Doenças Osteometabólicas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).

Mas o ponto é que eles não são difíceis de encontrar. “Se eu comer verdura todos os dias, peixe duas vezes por semana, carne vermelha com frequência e ingerir laticínios e ovo, eu vou conseguir adquirir, através deles, as vitaminas e minerais necessários”, acrescenta o médico.

Ou seja, para quem come bem, passa até 30 minutos sob exposição solar por dia e não tem deficiência diagnosticada, o suplemento não acrescenta quase nada. A necessidade, então, fica restrita às pessoas que não conseguem atingir as metas diárias no dia a dia.

Além disso, ao melhorar as taxas das vitaminas e minerais no organismo, as pílulas podem ajudar pessoas que já passaram por algum problema. Isso inclui idosos com quadros como osteopenia, osteoporose ou mesmo histórico de fraturas por fragilidade óssea.

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Mas, nesses casos, eles nunca agem sozinhos. Para evitar que o osso quebre de novo, são necessários remédios específicos, como alendronato e risedronato sódico.

Eu acrescento os suplementos para ajudar as medicações”, explica Barra sobre o objetivo real das formulações. “Se cálcio e vitamina D isolados evitassem fratura osteoporótica, eu não precisaria de remédios. Ou seja, o que artigo reforça é que os suplementos sozinhos não são tratamento”, diz.

Recado final

Portanto, a recomendação é que os suplementos só sejam indicados depois de uma avaliação clínica do paciente, de forma individualizada, e em casos de necessidade.

Na pesquisa do Canadá, os cientistas concluem afirmando que “não apoiam a suplementação rotineira com cálcio ou vitamina D, ou a suplementação combinada, para prevenir fraturas e quedas”.

Além disso, eles sugerem que médicos, comitês de diretrizes e agências reguladoras “devem reavaliar suas recomendações gerais para suplementação à luz das evidências atuais”.

 



Fonte: Saúde Abril

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