O governo central encerrou 2025 com um déficit primário de 0,5% do PIB, valor um pouco pior do que o 0,4% observado em 2024, mas bem melhor do que a média de déficits observados em 2015-23, de cerca de 2,5% do produto. Nos EUA, hoje esse déficit primário está em torno de 4%, ao passo que na China está em mais de 7%.
A despeito disso, a relação entre dívida pública e PIB no Brasil vem crescendo mais rapidamente. Isso porque os gastos com juros incidentes sobre o estoque da dívida não estão computados nas despesas primárias, que são utilizadas para calcular os resultados mencionados acima. Quando se levam em conta os juros, o déficit fiscal brasileiro está em cerca de 9% do PIB, um dos mais elevados do mundo.
E por que os juros pagos sobre a dívida são elevados? Bem, em primeiro lugar, porque a dívida é alta. Uma coisa é pagar juros de 15% a.a. sobre uma dívida de R$ 100, outra coisa é pagar esse mesmo percentual sobre uma dívida de R$ 1 milhão.
Mas e a taxa de juros? Aqui a análise fica um pouco mais complexa. Por um lado, sabemos que o Banco Central fixa a taxa de juros de curto prazo, a Selic, para viabilizar o cumprimento do seu mandato legal, que estabelece que ele deve atuar para manter a inflação em torno de uma meta previamente definida bem como para manter a economia operando próxima do pleno emprego.
Contudo, a taxa Selic impacta o custo da dívida pública, particularmente dos títulos com prazos mais curtos e pós-fixados. Mas os juros pagos pelos títulos com prazos maiores, 10, 20, 30 anos, não dependem muito da Selic, e sim da percepção de risco de solvência da dívida e dos riscos inflacionários prospectivos. Caso os compradores de títulos públicos desconfiem da capacidade do governo de pagar o que prometeu e da trajetória futura da inflação, eles acabam exigindo prêmios maiores para financiar o governo.
Hoje a Selic se encontra em nível extremamente elevado, um juro nominal de 15% a.a. e real de quase 11% a.a. Isso está impactando negativamente a dívida pública. Poderia ser diferente? Nas minhas estimativas da “função de reação” do BC (também conhecida como Regra de Taylor), a Selic já deveria estar caindo desde meados de 2025 e deveria estar hoje entre 11% e 12% a.a. Ainda seria um nível elevado, contracionista (acima do juro neutro, hoje em uns 9,5%), mas esses 3 a 4 pontos percentuais a menos de Selic certamente trariam um alívio expressivo sobre as contas públicas.
Vale notar que o exercício citado no parágrafo anterior considera estimativas do próprio Banco Central para o grau de ociosidade da economia (“hiato do produto”), estimativas do mercado para o juro neutro e uma meta de inflação de 3%. Os leitores da minha coluna sabem que eu acho que essa meta é irrealista —e isso pode explicar mais um tanto do juro real atipicamente elevado no Brasil, como apontou um estudo recente do MADE-USP, preparado pelo economista Guilherme Klein.
Não obstante, o juro real longo pago pelos títulos brasileiros hoje também é extremamente elevado, acima de 7% a.a. (versus 1,5% a 2% para os EUA). Isso reflete sobretudo as crescentes desconfianças quanto à capacidade do governo brasileiro de honrar sua dívida, em um contexto no qual ela já é elevada (quase 80% do PIB) e deverá continuar subindo por muitos anos.
Faz dez anos que o Brasil vem tentando implementar uma consolidação fiscal, sem muito sucesso.
Precisaríamos chegar o quanto antes a um superávit primário de cerca de 1,5% a 2% do PIB para estabilizar a dívida. Isso poderia reduzir muito o custo de emissão de títulos de longo prazo, gerando um círculo virtuoso: melhora da percepção de solvência e impulso ao PIB potencial ao tornar os investimentos produtivos mais atraentes do que as aplicações em títulos públicos.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Fonte: Uol