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Trump ameaça com a maior tarifa do mundo, volta atrás — e país africano paga o preço | Mundo

Trump ameaça com a maior tarifa do mundo, volta atrás — e país africano paga o preço | Mundo
Donald Trump — Foto: Nathan Howard/Reuters


Os Estados Unidos anunciaram nesta sexta-feira (1º) uma tarifa de 15% sobre produtos do Lesoto, a partir de 7 de agosto — uma redução expressiva em relação à alíquota de 50% anunciada pelo presidente Donald Trump durante o “Liberation Day”, em abril.

Apesar do recuo, o pequeno país africano já sofreu fortes danos: com uma economia altamente dependente da indústria têxtil e do mercado americano, Lesoto enfrentou paralisações, demissões e queda nas exportações ao longo dos últimos meses.

O FMI prevê que o crescimento do PIB de Lesoto deverá cair quase pela metade, para 1,4% entre 2025 e 2026, “refletindo um ambiente externo muito mais turbulento e incerto”.

A decisão de reduzir a tarifa veio após uma suspensão provisória de 90 dias. Durante esse período, compradores americanos suspenderam pedidos, fábricas interromperam a produção e milhares de trabalhadores foram dispensados, de acordo com reportagem publicada pela agência de notícias “Reuters”.

O economista Lyle Begbie, da Oxford Economics, disse que a nova tarifa ainda representa uma desvantagem competitiva, mas é significativamente menos danosa do que os 50% inicialmente previstos.

Segundo ele, “a nova alíquota deve permitir que o setor manufatureiro do Lesoto mantenha sua competitividade comercial, e é esperado que as exportações têxteis para os EUA continuem”.

Indústria têxtil de Lesoto: base da economia e elo com os EUA

A indústria têxtil representa cerca de 90% dos empregos manufatureiros e emprega cerca de 40 mil pessoas — sendo o maior empregador privado do país, de acordo com Begbie.

Um trabalhador na fábrica de jeans em Lesoto — Foto: Fredrik Lerneryd / Bloomberg

O economista afirmou que o setor é fortemente dependente do mercado americano e do acordo African Growth and Opportunity Act (Agoa, na sigla em inglês), acordo que permite que países africanos qualificados exportem produtos para os EUA com isenção de tarifas.

Esse elo comercial construído ao longo de décadas com os Estados Unidos tornou a tarifa de Trump especialmente danosa. Embora a Casa Branca tenha justificado a medida afirmando que o Lesoto cobraria tarifas de até 99% sobre produtos americanos, autoridades do país disseram à “Reuters” desconhecer a origem desse número.

O governo de Lesoto alertou que poderá perder até 40 mil empregos se o Agoa não for renovado no final de setembro, de acordo com uma reportagem publicada pela agência de notícias “AFP”.

A taxa de desemprego em Lesoto é de 30%, mas entre os jovens esse valor é de quase 50%, de acordo com dados oficiais relatados pela rede britânica “BBC”.

Em uma entrevista à agência de notícias Associated Press, David Chen, presidente da Associação de Exportadores Têxteis de Lesoto, alertou que a decisão do governo dos EUA de reduzir as tarifas oferece pouco alívio para a indústria em dificuldades, já que seus concorrentes têm tarifas menores.

“Outros países com os quais competimos já estão pagando 10%, o que dificulta nossa competição em pé de igualdade”, disse Chen, destacando o Quênia, país do leste da África, como seu concorrente mais forte, com uma tarifa mais favorável de 10%. “Como resultado, muitas fábricas terão que fechar”, disse Chen. “Elas já haviam sido forçadas a demitir trabalhadores quando as tarifas foram anunciadas pela primeira vez em abril.”

O professor Rodrigo Amaral, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, afirmou que a maioria dos países africanos, incluindo o Lesoto, adota tarifas moderadas, em grande parte porque são membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, portanto, seguem regras comerciais internacionais que costumam ser mais rigidamente aplicadas aos países em desenvolvimento.

Além disso, Amaral destaca que muitos países da África Subsaariana são classificados como nações de baixa renda, o que lhes garante maior flexibilidade tarifária e acordos comerciais preferenciais com potências como os Estados Unidos. Para o professor, a acusação de Trump sobre o Lesoto tem motivações políticas e geopolíticas.

“Os EUA exportam com facilidade para o continente africano, especialmente produtos industrializados, agrícolas e farmacêuticos. Não há desequilíbrio comercial que justifique a narrativa de práticas injustas”, afirmou Amaral.

Economia de Lesoto é dependente e frágil

Cercado pela África do Sul e com população estimada em 2,3 milhões de habitantes, o PIB de Lesoto cresceu 2,8%em 2024 e atingiu US$ 2,27 bilhões em preços correntes. Em uma estimativa modelada pela Organização Mundial do Trabalho, a taxa de desemprego no país caiu de 16,5 %para 16,1%. A taxa da inflação oficial também caiu, de 6,3% para 6,1%, entre o ano passado e o período imediatamente anterior. O Lesoto tem PIB per capita de US$ 1.106,5, um dos menores do continente.

De acordo com o Banco Mundial, o país enfrenta limitações estruturais ao desenvolvimento, como relevo montanhoso, escassez de terras férteis e padrões climáticos imprevisíveis. Esses fatores agravam a insegurança alimentar, dificultam a agricultura e a construção de infraestrutura, além de comprometer a produtividade.

O Banco Mundial também destaca a forte dependência com África do Sul para comércio e emprego. Apesar dos recentes avanços, a economia do país é vulnerável a choques externos, e a pobreza permanece generalizada — especialmente em áreas rurais. Acesso precário a serviços básicos, como saúde e educação, altas taxas de HIV/AIDS e uma força de trabalho reduzida também afetam o desempenho econômico do país.

*Estagiário sob supervisão de Diogo Max



Fonte: Valor Econômico

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