A resistência global dos investidores contra a dívida pública de longo prazo dos Estados Unidos está transformando o que normalmente seria um leilão de títulos públicos em um dos eventos mais aguardados em Wall Street esta semana.
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O Tesouro deve vender US$ 22 bilhões em títulos públicos de 30 anos na quinta-feira, parte de seus empréstimos regulares. Os resultados, no entanto, receberão atenção especial, pois oferecerão uma leitura instantânea da amplitude da demanda do mercado em um momento em que o apetite dos investidores por títulos americanos de 30 anos diminuiu.
“Todos os leilões serão vistos sob a ótica de um teste de sentimento do mercado”, disse Jack McIntyre, gestor de portfólio da Brandywine Global Investment Management. “Parece que os títulos do Tesouro dos EUA de 30 anos são os menos desejados que existem.”
Os rendimentos da dívida global de longo prazo dispararam nas últimas semanas, à medida que a preocupação com o aumento da dívida e dos déficits levou alguns investidores a evitar os títulos e outros a exigir um prêmio maior pelo risco de empréstimos a governos.
Os rendimentos dos títulos de 30 anos dos EUA atingiram a máxima de quase duas décadas, de 5,15%, no mês passado. Nesta terça-feira, operavam a 4,931%, ainda em níveis elevados.
Rendimentos mais altos significam pressão de financiamento em um momento em que os EUA estão se endividando mais e os gastos do governo continuam desenfreados. A versão aprovada pela Câmara do projeto de lei de impostos e gastos do presidente Donald Trump, segundo algumas previsões, adicionará trilhões aos déficits orçamentários dos EUA nos próximos anos. A Moody’s Ratings rebaixou sua pontuação de crédito para os EUA no mês passado.
“Estamos em uma tendência fiscal preocupante”, disse Fred Hoffman, ex-gestor de fundos que se voltou para a academia há cerca de sete anos e agora é professor de finanças na Rutgers Business School.
Detalhes como a “cauda” do leilão — quando os rendimentos se estabilizam em relação ao nível de emissão — e até que ponto as ordens excedem o montante da dívida à venda fornecerão pistas sobre a demanda. A participação estrangeira também estará em destaque.
“Se este leilão e os próximos leilões continuarem fracassando com resultados ruins e taxas de oferta/cobertura horríveis, então temos um problema”, disse Hoffman, que discute mercados de dívida e mecânica em algumas de suas palestras.
A fraca demanda por um leilão de títulos de 20 anos em 21 de maio — não um favorito dos investidores — foi suficiente para fazer os rendimentos dispararem naquele dia. Um desempenho semelhante para o título de 30 anos, uma referência global, seria ainda mais preocupante.
O Tesouro também leiloou US$ 58 bilhões em notas de três anos nesta terça-feira e outros US$ 39 bilhões em dívida de 10 anos serão leiloados nesta quarta-feira.
Para deixar claro, ninguém está levantando a possibilidade de um chamado leilão fracassado, e há mecanismos de segurança embutidos no processo para ajudar a evitar grandes desorganizações. Uma rede de duas dúzias de corretores primários é necessária para dar lances em todos os leilões.
O recente aumento nos rendimentos também pode atrair compradores. McIntyre, da Brandywine, disse que recentemente comprou títulos de 30 anos com um rendimento em torno de 5%, um nível que alguns consideram atraente.
Para muitos, porém, o panorama geral é de rendimentos de longo prazo elevados no futuro próximo, mesmo que a perspectiva para títulos de curto prazo melhore à medida que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se aproxima de cortar as taxas de juros.
Greg Peters, codiretor de investimentos da PGIM Fixed Income, afirma que é mais seguro evitar títulos do Tesouro de longo prazo, visto que eles estão cada vez mais vinculados a forças políticas do que à política monetária.
“Veja o que está acontecendo no mercado de juros de longo prazo: ele está se desconectando”, disse Peters, que ajuda a supervisionar US$ 862 bilhões em ativos, em entrevista à Bloomberg TV na sexta-feira. “Está sendo impulsionado pelo prêmio de risco, pela política e por todos esses outros fatores.”
Ainda assim, os operadores de swaps estão precificando expectativas de que o Fed cortará as taxas em cerca de meio ponto percentual no segundo semestre deste ano. As apostas de redução das taxas pelo Fed têm oscilado desde dezembro, com a perspectiva de que a agenda tarifária do governo Trump reacenda a inflação, servindo como o principal catalisador para que os operadores ajustem as apostas.
Fonte: Valor Econômico