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Introdução
A ‘geração canguru’ reflete um processo de amadurecimento interrompido, não só dos filhos, mas também dos pais. Explora-se a dificuldade de autonomia em adultos e a necessidade dos pais de reconhecerem a transição dos filhos para a vida adulta, enfrentando o luto pelas fases passadas para permitir a evolução de vínculos. Leia mais.
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- Aumento da “geração canguru” e “síndrome do ninho cheio” entre adultos.
- Pesquisa aponta aumento de 137% em uma década de jovens adultos vivendo com os pais.
- O amadurecimento é um processo compartilhado, exigindo que pais e filhos se adaptem a novas fases.
- A parentalidade atravessa três etapas, e a transição envolve lidar com o luto por perdas simbólicas.
- A infantilização pode levar a insegurança e dificuldades em relações afetivas duradouras.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Em seu famoso show Gerações, disponível no Amazon Prime Video, o comediante Afonso Padilha fala, em determinado momento, que muito “marmanjo” na faixa dos 30 anos ainda diz que não sabe o que vai ser quando crescer, e que essa é a geração que mais está demorando para deixar a casa dos pais – em muitos casos, nem pretende sair tão cedo.
Ele comenta isso de maneira leve e divertida, arrancando risadas nervosas da plateia que está nessa faixa etária e se reconhece na situação.
Há, inclusive, termos para descrever esse fenômeno. Fala-se em geração canguru, uma analogia ao filho que não sai do “colo” da mãe, e a síndrome do ninho cheio, quando os filhos não saem da casa dos pais, ou voltam após um período morando fora (o oposto do “ninho vazio”, quando os jovens vão embora do lar parental).
O que mostram os números
Uma pesquisa recente da Kantar IBOPE Media aponta que o número de pessoas entre 25 e 34 anos que não saiu do lar parental aumentou 137% em uma década.
As explicações mais comuns envolvem dificuldades financeiras (impossibilidade para manter uma casa sozinho, perda de emprego, fim de casamento) e acomodação: afinal, é extremamente confortável ter roupa lavada e comida quentinha todo dia, sem precisar se esforçar para isso.
Como diz Padilha em sua apresentação, nada substitui o “ovinho de gema mole que só a mamãe sabe fazer.”
Uma maturidade que é compartilhada
Estamos, sem dúvida, diante de uma população que está demorando demais para alcançar a autonomia. Muitos adultos de 30 anos ou mais ainda agem como se estivessem no fim da adolescência. Até trabalham e têm renda, namoram, mas não abrem mão do seu quartinho na casa dos pais.
Quero destacar aqui outro aspecto importante dessa dinâmica. Por trás de filhos que insistem em agir como adolescentes, frequentemente há pais com dificuldades em reconhecer que suas “crias” se tornaram adultos.
A maturidade, neste caso, é um processo compartilhado. Os pais também precisam amadurecer para possibilitar o crescimento dos rebentos.
As três fases da parentalidade
A parentalidade, de modo geral, atravessa três etapas: a dos pais da criança e do adolescente; a dos pais de adultos; e, mais adiante, a dos pais idosos (nesta última, não raro, os filhos acabam assumindo o cuidado dos genitores).
Essa transição faz parte do ciclo da vida. É fundamental, de forma simbólica, deixar “morrer” os pais da criança e adolescente para que nasçam os pais do adulto e, posteriormente, os pais mais velhos.
Ocorre que, nos dias atuais, a tendência tem sido ficar “represado” na primeira fase. Assim, o casal parental (ou um dos dois) continua agindo com o jovem da mesma maneira de quando ele tinha 9, 10 anos.
Deixa café da manhã, almoço e jantar prontinhos para ele, checa se o sujeito levou a blusa de frio ao sair para trabalhar, escolhe roupas e outros itens pessoais que se deve usar, não dorme enquanto ele não chega da rua. Já ouvi frases como: “vai ser para sempre meu bebê”.
O preço da infantilização
O problema é que indivíduos tratados como crianças tendem a incorporar esse lugar, ainda que já sejam adultos. Alguns conseguem se dar bem na vida profissional, mas, emocionalmente, correm o risco de não se desenvolver. Adultos infantilizados podem apresentar insegurança e ansiedade constantes e dificuldade para manter relações afetivas duradouras.
Isso é consequência de um dilema muito presente na sociedade atual: a incapacidade de lidar com perdas. Quando uma pessoa se torna adulta, ela e seus pais têm de passar pelo processo de luto: enfrentar o pesar pela criança e adolescente deixar de existir, e se adaptar ao adulto que passa a emergir.
Muitas vezes, dói, mas a compensação é a ascensão de um sujeito forte e preparado para enfrentar os percalços do cotidiano. Precisamos atravessar as fases da vida; só assim podemos evoluir e possibilitar a existência de vínculos mais amadurecidos.
*Rosana Zakabi é psicóloga, jornalista e psicanalista, membro-filiada da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP).
Fonte: Saúde Abril