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Por que ainda falhamos em tratar a depressão? Um dos maiores especialistas do mundo explica

Por que ainda falhamos em tratar a depressão? Um dos maiores especialistas do mundo explica
O psiquiatra dinamarquês Gregers Wegener se apresentou no Congresso sobre Cérebro, Comportamento e Emoções, em Porto Alegre (BrainCongress/LM7Fotoevideo/Reprodução)



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Quatro em cada dez brasileiros com depressão não respondem às medicações disponíveis hoje para tratar o transtorno mental, que é a segunda causa de deficiência global em todo o mundo. Ou seja, um fator decisivo na perda de qualidade de vida, relacionamentos e produtividade.

Por que o tratamento falha com tanta frequência? O psiquiatra dinamarquês Gregers Wegener deu algumas pistas em palestra no Congresso sobre Cérebro, Comportamento e Emoções (Brain Congress).

“Não estamos desenvolvendo nada diferente”, critica o médico sobre a criação de novas terapias.

Professor de psiquiatria experimental na Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e referência em neurobiologia da depressão e ansiedade, Wegener falou sobre a dificuldade de desenhar ensaios clínicos que abarquem toda a complexidade da condição e a necessidade de levar em consideração as comorbidades dos pacientes, como ansiedade e bipolaridade.

Entenda as críticas do cientista em cinco pontos:

1. Holofotes (apenas) na serotonina

Na década de 1960, o psiquiatra britânico Alec Coppen propôs que a depressão seria causada pela deficiência de serotonina, mais conhecida como “hormônio da felicidade”.

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A hipótese é a mais aceita pelos cientistas e embasou o desenvolvimento de diversos medicamentos que reduzem os sintomas depressivos ao aumentarem a disponibilidade da serotonina no cérebro, chamados serotoninérgicos.

Porém, outros mecanismos de ação ainda precisam ser explorados, como a cetamina ou os compostos psicodélicos. “Não estamos desenvolvendo nada diferente”, critica Wegener.

Ainda assim, o psiquiatra reforça que as dezenas de antidepressivos lançados até agora são seguras e eficazes, validadas por estudos clínicos e meta-análise, superando placebo em todos os casos.

2. Depressão é uma doença multifatorial

Wegener coloca na balança também o fato da depressão ser uma doença multifatorial e de suas causas irem muito além das biológicas. Por isso, o tratamento não depende apenas de medicamentos, mas também do suporte psicossocial aos pacientes.

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“A depressão não é uma doença puramente biológica — então, não devemos tratá-la apenas nessa perspectiva”, defende.

3. Sistema diagnóstico falho

Wegener critica que, hoje, pacientes com diferentes perfis estão sendo diagnosticados com uma mesma doença, sem levar em consideração as especificidades de cada caso. Em sua avaliação, a psiquiatria ainda carece de biomarcadores que diferenciem biologicamente os diversos tipos da doença.

“Os critérios do DSM [Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais] são muito bons para o que você chama de um diagnóstico e uma comunicação confiável, mas não nos dizem nada sobre a biologia e os mecanismos da doença, o prognóstico”, argumenta.

4. Comorbidades

“Comorbidades são a regra, não a exceção”, afirma Wegener. Para ele, ensaios clínicos devem ser moldados para avaliar o resultado de medicamentos em pacientes com mais de uma condição psiquiátrica, como ansiedade, bipolaridade, esquizofrenia, entre outras.

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“Nós temos comorbidades em quase todos os pacientes”, desabafa. “Os ensaios clínicos são construídos de uma maneira ‘artificial‘ para não diluir os resultados”. O resultado, em sua perspectiva, é que os medicamentos podem não reagir tão bem quanto se fossem desenvolvidos pensando nas comorbidades desde o princípio.

5. Modelos animais

O dinamarquês também critica a forma como são feitos os ensaios pré-clínicos, ainda baseados em animais. “Os modelos animais funcionam para triagem farmacológica básica, mas falham em replicar a real complexidade da doença humana, uma vez que sentimentos e comportamentos não podem ser medidos em laboratório”, explica o médico.

Entre situações de difícil modelagem que envolvem a depressão estão o luto, a culpa e o suicídio.

* A repórter viajou a Porto Alegre para convite da organização do Congresso sobre Cérebro, Comportamento e Emoções (Brain Congress).



Fonte: Saúde Abril

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