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O “Bruxo” captava sons pelos meios mais inusitados | Brasil

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Hermeto Pascoal morreu neste sábado, aos 89 anos, anunciou a família pelas redes sociais. Mesmo canal que usará para detalhar sobre as despedidas.

Acordeão, flauta, piano, saxofone, sintetizador eram alguns dos instrumentos, mais de 20, em que Hermeto praticava a criatividade de compositor e intérprete reconhecido no Brasil e no exterior. Também captava sons por meios inusitados, nos quais sua sensibilidade pudesse encontrar significados ocultos para ouvidos habituados a experiências convencionais. Soprar o bico de uma chaleira ou uma bomba de encher pneu de bicicleta, por exemplo, poderiam sugerir modulações inspiradoras.

Associando seu processo de criação musical a origens que dizia “instintivas”, “intuitivas”, guiava-se por uma ideia de “som universal”, independente de categorizações de temas ou gêneros. Não teve educação musical formal. Tudo que aprendeu era fruto de espontaneidade, por efeito de um “dom”, como também dizia, a que se entregava sem restrições de meios ou de mentalização prévia.

Não sabia explicar como aprendeu a fazer música. “Não sei. Não estudei com ninguém. Nunca parei pra pensar como aprendi. Até hoje não sei como sei tanta coisa assim. Não tenho diploma. O dom musical já vem com a pessoa.” [No documentário “Hermeto Campeão”, realizado em 1981 por Thomas Farkas].

“Eu vou compondo e o que vem na cabeça eu vou escrevendo” [na pauta, com notações de estilo próprio, que em boa parte só ele compreendia]. “Tanto faz, escrevendo, como gravando. Depois é que eu vou saber, fico curioso pra saber. Até parece que não fui eu que fiz a música. A música está na pauta, mas a música verdadeira é aquela que você imagina, que você pensa, aquilo que você canta, que você toca. Essa é a verdadeira música. Botar no papel é fácil, é só estudar.”

Incorporou à sua figura pública uma certa aura de misticismo. Albino, mínima capacidade visual, que compensava com óculos de armação escura, em contraste com fartos cabelos e barba branquíssimos, compleição atarracada — a imagem física sugeria correspondência com as idiossincrasias da criatividade sonora e musical de suas composições e arranjos de interpretação, para orquestras ou grupos de músicos que o acompanhavam.

“Ganhar dinheiro a gente ganha. Mas o dinheiro não pode ganhar a gente. O dinheiro ficou pra gente ganhar, mas não pra gente se vender. Se você faz mil concessões, como os caras querem, você está se vendendo. O que eu mais fujo é do dinheiro. Não tem que fazer show pra sobreviver, porque a gente não morre de fome, não. A gente sai pedindo por aí, se estiver duro.” [No mesmo documentário]

O apelido de Bruxo tornou-se parte de sua peculiar identidade artística, a do apanhador de sons à procura de musicalidades experimentais, anticonvencionais, em grande parte encontradas no contato com a natureza, a mesma de sua infância e adolescência –, como o borbulhar da água numa lagoa em que ele, só a cabeça na superfície, fazia da própria boca um instrumento de sopro. Ou tocando flauta, na mesma lagoa, acompanhado de músicos que, também meio imersos, sopravam garrafas, ou tiravam sons de estalactites descobertas numa caverna, ao modo de um xilofone.

Em “diálogos” improváveis, provocava aves e sapos com sequências curtas de flauta, que pareciam responder com seus trinados e coaxar (“Mas é preciso ter cuidado. Em termos de rapidez mental, eu perco até pro sapo. Quando ele espera que eu faça o lance, ele me desafia.”). Também lhe serviam de material criativo os zumbidos de abelhas e grilos.

Autodidata desde cedo, aprendeu os princípios do acordeon aos 10 anos, junto do irmão, José Neto, os dois dedilhando a sanfona de oito baixos que compartilhavam com o pai. Não demorou para que, já com certo domínio do teclado simplificado, se apresentassem em festas de casamentos, batizados e bailes ao ar livre em Lagoa da Canoa, o lugarejo do município de Arapiraca, Alagoas, onde nasceu em 22 de junho de 1935. Aos 14 anos, estreou com o irmão na Rádio Tamandaré, do Recife, já então em desembaraçado desempenho.

Em 1958 estava na Rádio Mauá, no Rio de Janeiro, agora como acordeonista do Regional de Pernambuco do Pandeiro. Também tocou nos conjuntos do violinista Fafá Lemos e do flautista Nicolino Copia. Piano e flauta foram seus instrumentos de trabalho em boates do Rio e de São Paulo.

Em 1966, passou a acompanhar Geraldo Vandré em seus shows, antes de integrar o Quarteto Novo, com Teo de Barros, Airto Moreira e Heraldo do Monte. No ano seguinte, o grupo acompanhou Marília Medalha e Edu Lobo na interpretação de “Ponteio”, composição de Edu Lobo e Capinam, vencedora do III Festival de MPB da TV Record, em São Paulo.

Em 1967, teve sua primeira composição gravada, “O Ovo”, no LP “Quarteto Novo”, único disco do grupo, uma experiência de estilização da música nordestina. Em 1968, o grupo se defez e Hermeto passou a acompanhar Edu Lobo em suas apresentações. Outros intérpretes, como Elis Regina, o prestigiavam como parceiro de shows e arranjador.

Em 1969, a convite de Airto Moreira (que tocava na banda de Miles Davis) e Flora Purim viajou para os Estados Unidos e gravou com eles dois LPs, atuando como compositor, arranjador e instrumentista. Gravou com o trompetista o LP “Miles Davis live”, em que aparecem duas composições de sua autoria, “Igrejinha” e “Nenhum Talvez”.

Gravou o primeiro disco todo seu nos Estados Unidos, em 1971, em que se destacava a composição “Velório”, representação sonora de um enterro como aqueles a que assistira em sua terra natal. Para isso, incluiu 36 garrafas como instrumentos, que, com afinações diferentes, eram sopradas por alguns dos mais conhecidos músicos americanos, entre os quais Hubert Laws e Joe Farrell.

Em 1972, recebeu da Associação Paulista de Criticos de Arte (APCA) o prêmio de melhor solista. Em 1973 a APCA lhe deu o prêmio de melhor arranjador.

Em 1973 gravou seu primeiro disco no Brasil, “A Música Livre de Hermeto Pascoal”, nova ocasião para mostrar-se em experiências inusitadas. Na faixa “Serei rei”, ele toca numa fazenda, entre porcos, galinhas, gansos e perus.

“Missa dos escravos”, seu terceiro disco, também foi gravado nos Estados Unidos, em 1977, como o de seis anos antes.

Em 1979, gravou pela WEA seu segundo disco brasileiro, em que se destacavam as composições “Gente Paulistana”, “Susto” e “Mestre Maia”, todas de sua autoria.

Ainda em 1979, participou do Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, quando gravou o LP duplo “Hermeto Pascoal ao Vivo”.

No princípio dos anos 1980, criou uma espécie de comunidade em sua casa, no bairro do Jabour, no Rio de Janeiro, com o objetivo de aprofundar o fazer musical na convivência diária com amigos e parentes. Era uma escola de formação de instrumentistas voltados para experiências criativas, como as típicas de Hermeto, alguns dos quais o acompanhariam em apresentações profissionais durante os anos seguintes, no Brasil e no exterior, em concertos na Alemanha, Suiça, Dinamarca, Inglaterra, Portugal, Japão, Líbano.

Entre 1996 e 1997 dedicou-se à produção de um “Calendário do Som”, coletânea de 366 partituras de músicas, compostas uma por dia. Cada pauta (com notações tradicionais e outras, de sua invenção) era acompanhada por breves textos manuscritos.

No livro, publicado em 2000 pela editora Senac, Hermeto não menciona estilos ou andamentos. Na composição de n° 99, 29 de setembro de 1996 (os títulos eram as datas de criação), escreveu: “Não gosto de falar sobre o estilo da música e nem do ritmo, para não influenciar o digníssimo intérprete. Se vire!” E na composição de n° 269, de 18 de março de 1997: “Frevo lembra Recife, e Recife também. Foi lá em Pernambuco que comecei tudo, música e família, e hoje músico universal, não pelo sucesso e sim pela música, o povo e a família. Viva a paz de espírito a todos os seres daqui e de lá”.

Todas as músicas do livro estariam disponíveis para uso livre de pagamento de direitos autorais, assim como centenas de outras suas composições anteriores, levadas para a internet.



Fonte: Valor Econômico

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