As pesquisas mais recentes indicam que a chamada geração “prateada” no Brasil — a população acima de 50 anos — deverá crescer de forma expressiva nas próximas décadas. Em 2024, esse grupo movimentava cerca de 1,8 trilhão; em 2044, a estimativa é que esse número alcance 3,8 trilhões. Sob a ótica do consumo, os maiores de 50 anos representavam 24% dos consumidores em 2024 e deverão chegar a 35% em 2044.
Trata-se de uma parcela da população que contribui de maneira significativa para a economia e para a manutenção das famílias brasileiras, especialmente quando se considera que parte dos mais jovens ainda está inserida no fenômeno “nem-nem”: nem estuda, nem trabalha.
Apesar do avanço dos estudos sobre esse público, muitas empresas ainda não desenvolveram produtos e serviços adequados às suas necessidades. Ao mesmo tempo, a análise do orçamento das famílias com idosos revela um aumento relevante dos gastos com saúde, em detrimento de áreas como educação, recreação e cultura, que vêm perdendo espaço.
A própria noção de envelhecimento também está mudando. Hoje, considera-se uma idade média de 76 anos, mas, até 2044, deve crescer o contingente de pessoas com 80 anos ou mais.
Além dos gastos com saúde, observa-se aumento nas despesas com vestuário, transporte, alimentação e habitação. Um segmento que tem se expandido rapidamente é o de residências para idosos, tanto para estadias temporárias quanto permanentes. O tema ainda gera debate, já que, tradicionalmente, o cuidado com os mais velhos era assumido pelas famílias.
As políticas públicas também entram no centro dessa discussão. Pessoas que não conseguiram formar uma reserva financeira ao longo da vida tendem a enfrentar dificuldades para manter seu padrão de vida, sobretudo diante da pressão sobre os sistemas de previdência, causada pelo aumento do número de aposentados em relação aos contribuintes e pela queda nas taxas de natalidade.
Como observa o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, professor aposentado da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), “crianças consomem menos que adultos e idosos. A renda das pessoas cresce com a educação, que tende a avançar com a idade. E o retorno dessa formação aparece ao longo do tempo, geralmente após os 50 anos. Portanto, a mudança demográfica também altera o padrão de consumo”.
Fica evidente que o governo, sozinho, não dará conta do desafio do envelhecimento populacional. Estudos e indicadores precisam estimular a mobilização de diferentes atores, como poder público, empresas e empreendedores. Ao mesmo tempo em que impõe desafios, esse cenário de transformação também abre oportunidades.
Por fim, há uma dimensão individual incontornável: é fundamental se preparar para um envelhecimento ativo do ponto de vista físico, financeiro e emocional. Para quem está na meia-idade, o alerta é ainda mais relevante, já que ainda há tempo para ajustar projetos de vida e construir um envelhecimento mais saudável e sustentável.
Renato Bernhoeft é fundador e presidente do conselho da höft consultoria.
Fonte: Valor Econômico