Foram oito meses fixando cada miçanga e pérola manualmente até que a peça de 30 quilos ficasse pronta. A fantasia monumental, feita para que a filha Izaura brilhasse como destaque na escola de samba Rosas de Ouro, reluzia tanto que chamou a atenção de Joãosinho Trinta. Ao ver a obra, o carnavalesco famoso exclamou: “Isso é um absurdo”.
O elogio de um dos maiores gênios dos desfiles selou o destino de Geralda França. A partir daquele vestido, ela se tornou uma das grandes mestras da costura do Carnaval de São Paulo.
Sem formação técnica, Dona Gê colocou seu dom nas agulhas, crochê e tecidos. A habilidade foi lapidada na juventude ao lado da irmã Amélia. Juntas, aprenderam os segredos do corte que, anos mais tarde, a transformariam na “madrinha” invisível das fantasias no Anhembi.
“Seu legado foi o trabalho árduo da costura e a simplicidade”, define a filha, Izaura Panfili, artista plástica e presidente da Adesp (Associação dos Destaques das Escolas de Samba do Estado de São Paulo).
Nascida no interior paulista, Geralda começou costurando para fábricas. Na década de 1980, passou a produzir os figurinos coloridos do Trio Los Angeles para palcos e programas de TV, além das peças vendidas na loja do grupo musical.
Mas o amor pelo trabalho a fixou de vez na passarela do samba.
Sua casa na Vila Nova Cachoeirinha, zona norte, virou um dos primeiros ateliês informais do Carnaval. Era porto seguro. Ali, jovens aderecistas e costureiros iniciantes encontravam abrigo, comida e lições gratuitas. Entre eles, Nilson Lourenço, o Nilsinho, hoje renomado figurinista.
Passar café quentinho e servi-lo no bule de alumínio, entregando a xícara para quem cruzasse a porta, era sua marca registrada. A hospitalidade atraía inclusive o presidente da Rosas de Ouro na época, Eduardo Basílio, em conversas que varavam a madrugada.
Devota de Nossa Senhora das Graças e de São José, Geralda costurava pequenos saquinhos da sorte do santo para distribuir a conhecidos. Sua generosidade também marcou a fundação da Adesp, há 27 anos, associação apoiada por ela desde o primeiro dia e hoje presidida pela filha.
Mas suas agulhas não se limitavam aos barracões. Coube a ela confeccionar o primeiro bandeirão da torcida Dragões da Real, do São Paulo, antes de o grupo virar escola de samba. Como costurava sozinha, o prazo apertou às vésperas de uma final de campeonato.
A torcida do time de futebol resolveu o problema de forma cinematográfica: colocou Geralda, sua máquina e o tecido gigante em uma perua rumo ao estádio. Ela finalizou a costura da lona de 60 metros em meio à torcida. Acabou virando são-paulina.
Geralda França convivia com o Alzheimer. Morreu em 18 de junho, aos 96 anos, deixando dois filhos e três netos.
Sua tesoura inseparável agora é guardada pela família como relíquia de uma vida dedicada a tecer sonhos.
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Fonte: Uol