Ainda que Lula prevaleça sobre Flávio, o Brasil continuará convivendo com um estorvo condenado por atentar contra a democracia. Nessa hipótese, Bolsonaro conservaria intacto o título de principal líder da oposição. E o PL manteria viva a perspectiva de obter uma polpuda bancada parlamentar. Em 2022, a despeito da vitória de Lula, o partido de Valdemar Costa Neto conquistou a maior bancada da Câmara e a mais vistosa caixa registradora do sistema partidário.
Quer dizer: mesmo derrotado, Bolsonaro emergiria da sucessão de 2026 como vitorioso. Tudo porque a direita presumivelmente democrática deixou de aproveitar — por fidelidade tosca ou medo atávico — as oportunidades que a conjuntura ofereceu para a construção de um projeto conservador à margem da família Bolsonaro. Não foram poucas as chances: a pandemia, o ataque às urnas eletrônicas, o complô golpista, o tarifaço americano urdido por Eduardo Bolsonaro, o lero-lero da anistia e um interminável etcétera.
Uma democracia genuína pressupõe o convívio entre diferentes. É essencial para a estabilidade democrática a existência de conservadores direita ou de centro com projetos nítidos de poder e de país. Isso não é coisa que se construa do dia para a noite, na base do improviso. Governadores autoproclamados moderados, cultivaram a ilusão de que um Bolsonaro inelegível e condenado passaria graciosamente o seu bastão para um deles.
Tornaram-se reféns de um preso que levou às urnas um herdeiro biológico cujos únicos projetos eram manter Vorcaro no armário e conservar a hegemonia do pai sobre uma direita que não teve a coragem de se endireitar. Toda covardia política tem um preço. Quem usa o cinismo para regatear aumenta o custo.
Fonte: Uol