Não há como acompanhar o noticiário e, sendo mãe de meninas, não temer. Não há como ler reportagens, ver vídeos na internet e conversar com pessoas sem que o medo, a insegurança, a incerteza e uma profunda tristeza me acompanhe.
Vivi em tempos nos quais meu dia a dia era cercado de atitudes machistas. Homens e mulheres tentavam controlar a roupa que eu deveria usar, o que poderia falar, como me sentar e queriam definir o meu futuro, sempre indicando que o melhor seria ficar em casa, não estudar e ser “a mulher perfeita para casar”.
Tive uma amiga que foi estuprada. Eu, 11 anos, ela 13. Menina evangélica. Saia longa, cabelo sempre preso em coque, blusa sem nenhum decote. Passos rápidos, bíblia embaixo do braço, citava versículos, não dava trela para futuros namoradinhos. Queria estudar.
Foi estuprada a caminho de casa, na volta a escola, na periferia da capital paulista, onde vivi minha infância e adolescência. Nunca mais voltou para a escola. Não pude falar com ela, não havia redes sociais, nem telefone celular. Não sei como está hoje, mas isso me tocou profundamente por toda a vida.
Lutei muito, e com muitas meninas e mulheres, pela liberdade de nossas decisões. Fui a primeira mulher de toda uma linhagem familiar a cursar a universidade —e pública— em uma cidade diferente da qual eu morava. Sair para estudar foi um choque para toda a família. “Como meu pai, até então tido como muito zeloso —para não falarmos machista— deixou isso acontecer?”, perguntavam os parentes.
Eu iria me “perder”. O “diploma” que levaria para casa seria um bebê sem pai. O fato é que quebrei paradigmas para que outras meninas, em especial as minhas filhas, pudessem ser, fazer e viver o que quisessem.
Anos depois, em pleno século 21, quando imaginávamos que teríamos carros voadores, robôs como trabalhadores domésticos e um diário que conversava conosco, tal qual no desenho Os Jetsons, o que vemos e vivemos é algo pior do que na pré-história. Comportamentos machistas, misóginos e violentos de red pills e outras facções de homens que odeiam mulheres estão moldando o dia a dia das meninas.
Elas hoje se dividem entre as que temem os homens e as que se submetem ao sonho de ser trad wife para poder serem aceitas.
Onde erramos na criação de meninos? Não sou mãe de meninos, mas preciso, como um ser social, me ver como parte do problema. O que foi que fizemos para que eles odeiem as mulheres apenas pelo fato de que, como seres humanos, elas têm direitos e desejos que precisam ser respeitados?
Lembro que, há cerca de 12 anos, um pouco depois de minha filha caçula ter nascido, uma trend na internet dizer que ao criar meninas fortes estávamos machucando os filhos de determinadas mulheres. Mães postavam “memes” pedindo para que nossas filhas não quebrassem o coração de seus filhos.
Não, ninguém criou mulheres para quebrar corações, mas para quebrar paradigmas. E frustração faz parte. Criamos meninas para que elas voassem em foguetes, se tornassem cientistas, professoras, artistas, CEOs e donas de casa, se assim o queiram.
Criamos meninas para que realizem sonhos e sejam respeitadas, assim como se respeitam meninos. Criamos meninas para que lutem karatê, judô e qualquer outra arte marcial por gosto e vontade, não para se defender de violência.
O que vem acontecendo agora na sociedade é inaceitável, e precisa ser superado. Não há como não temer por minhas filhas e tantas outras jovens mulheres. Como no passado, não vamos deixar o medo nos paralisar e vamos seguir com coragem. Não há como retroceder e nem devemos. O caminho é confiar no futuro e seguir.
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Fonte: Terra