PUBLICIDADE

Lesão medular: tratamento padrão ouro já existe, mas não chega a todos

Lesão medular: tratamento padrão ouro já existe, mas não chega a todos
Atualmente, cirurgia para estabilizar a coluna e reabilitação constituem o tratamento padrão ouro para lesões medulares (Laura Luduvig/EstúdioTigre/Veja Saúde)



Ler Resumo

Nos últimos meses, a repercussão em torno de terapias experimentais para o tratamento da lesão medular voltou a mobilizar famílias, pacientes e profissionais de saúde em torno do tema. A expectativa é compreensível.

Trata-se de uma condição que afeta 15 milhões de pessoas no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e compromete de forma profunda a mobilidade, a autonomia e a qualidade de vida.

Mas, se a proposta é defender a ciência, vale lembrar que a evidência disponível hoje já aponta um caminho claro para esse tipo de lesão. O padrão ouro consiste na abordagem cirúrgica – quando indicada – associada a um trabalho de reabilitação estruturada, intensiva e contínua, conduzida por equipe interdisciplinar gerenciada e inserida em um percurso assistencial capaz de dar sequência ao cuidado.

Ignorar essa etapa é reduzir o tratamento justamente onde ele mais interfere na autonomia futura do paciente.

+Leia também: O sonho caminha: a polilaminina e outras apostas contra a lesão medular

Tratamento da lesão medular: o que a ciência já comprova

Enquanto boa parte do debate público se concentra em terapias novas e em desenvolvimento, o país ainda não consegue garantir uma etapa já respaldada pela evidência e reconhecida como parte primordial do tratamento.

Continua após a publicidade

Na rede pública, a principal espinha dorsal dessa assistência está nos Centros Especializados em Reabilitação, que somavam 324 unidades em 2025. Ainda assim, a oferta segue majoritariamente ambulatorial e insuficiente para responder, de forma homogênea, à demanda de pacientes que precisam de cuidado mais intensivo e continuado.

Hoje, para se conseguir atenção especializada, o caminho é estreito, especialmente sob os critérios de disponibilidade, acomodação e adequação da oferta.

Desigualdade no acesso à reabilitação no Brasil

No setor privado, a oferta também não é tão abrangente. Embora existam iniciativas relevantes, elas ainda parecem concentradas em grandes centros urbanos e nas capitais, sem distribuição igualitária pelo território.

Continua após a publicidade

Uma escassez que se revela até mesmo no número de profissionais dedicados. A fisiatria, por exemplo, especialidade médica voltada para reabilitação por avaliar funcionalidade, definir objetivos terapêuticos e coordenar o trabalho interdisciplinar, reúne apenas 0,2% dos especialistas médicos do país — um dos mais baixos contingentes no cenário nacional.

Demanda crescente por reabilitação preocupa especialistas

O desafio ganha dimensão ainda maior quando se observa o tamanho da demanda potencial. Dados mais recentes do IBGE mostram que o Brasil tinha 18,6 milhões de pessoas com deficiência em 2022, segundo a PNAD Contínua.

Em paralelo, o envelhecimento populacional e o aumento da sobrevivência após eventos agudos, como AVC, trauma, internações prolongadas e pós-Covid ampliam a necessidade de reabilitação e reforçam a pressão sobre uma rede que ainda opera de forma desigual no território.

Continua após a publicidade

Defender a ciência não se trata apenas de apostar no novo, mas também de assegurar acesso ao que já demonstrou eficácia. Em um tema como lesão medular, isso significa garantir que o paciente tenha, no momento certo, o melhor ambiente de cuidado, com intensidade terapêutica compatível com sua fase de recuperação.

O futuro importa, mas, além de se pesquisar e discutir o que pode vir, é preciso garantir à população o que já sabemos que funciona.

Polilaminina: o que é e como funciona?

*Simone Lino é médica, especialista em Fisiatria, gerente médica de reabilitação do Hospital Valsa de Reabilitação, e atua em ambiente hospitalar e ambulatorial desde 1990.



Fonte: Saúde Abril

Leia mais

PUBLICIDADE