A operação dos Estados Unidos na Venezuela aponta que a influência que o Brasil exerce na América do Sul pode estar mudando, avalia a The Economist. Segundo a revista, ainda não está claro se a movimentação americana enfraquece ou não a liderança brasileira na região e se o país precisa repensar a sua estratégia de política internacional.
Historicamente, a influência que os EUA exerciam na América Central e Caribe era explícita, mas a The Economista afirma que “existia uma deferência implícita em relação aos países mais ricos e maiores da América do Sul. As intervenções dos Estados Unidos na região, muitas vezes aprovadas pelas administrações em exercício, tendiam a ser secretas. Já o Brasil assumiu a liderança na resolução de conflitos entre países [da região].”
Porém, a operação na Venezuela foi a primeira vez que os EUA depuseram diretamente um presidente em exercício na América do Sul e o Brasil não foi nem consultado e nem avisado sobre os planos americanos, além de não estar participando das discussões sobre o futuro do país vizinho.
“A Casa Branca não está buscando ajuda ou cooperação de líderes regionais”, afirmou Christopher Garman, do Eurasia Group, uma consultoria de Nova York, ao The Economist.
“Mesmo que o Brasil fosse consultado, não está claro se ele poderia agir como um líder regional. A eleição de presidentes de direita em diversos países minou sua influência. Embora Brasil, Colômbia e México tenham condenado a incursão, Argentina, Equador, Paraguai e outros se mostraram jubilantes”, afirma a The Economist.
A revista também levanta dúvidas se o Brasil conseguiria, de fato, intervir na Venezuela, se necessário. Primeiro porque a política externa brasileira, baseada na Constituição Federal, afirma que as relações internacionais devem ser fundamentadas na não intervenção e na solução pacífica de conflitos.
Segundo, porque do ponto de vista militar, generais estariam reclamando que projeto cruciais, como o desenvolvimento de um sistema de defesa aérea e a construção de um submarino de propulsão nuclear, estariam atrasados devido a cortes no orçamento, afirmou a The Economist.
Por outro lado, a revista diz que “o peso do Brasil lhe confere opções que poucos outros países têm e permite que mantenha relações comerciais e diplomáticas diversificadas”. Isso poderia explicar por que, mesmo após a operação na Venezuela e as ameaças feitas contra Colômbia, o México, a Groenlândia, Trump teria “se mantido em silêncio nas últimas semanas sobre o Brasil”.
Garman disse à The Economista que o Brasil estaria “protegido da doutrina Donroe” por seus “ativos muito valiosos”.
“Uma potência agrícola e gigante da energia, o Brasil também detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, um grupo de 17 elementos usados na produção de veículos elétricos e armas. Ao contrário da maioria dos líderes, Lula se opôs a Trump depois que ele impôs tarifas ao Brasil no ano passado. A maioria delas foi retirada logo depois”, explica a revista.
Por fim, a The Economista também afirma que, apesar do avanço de Trump pela América Latina, o Brasil se beneficia do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia e que o país também se dedica a fechar um acordo comercial com o Canadá, enquanto fortalece as suas relações com a China.
Fonte: Valor Econômico