A pressão interna está aumentando na Indonésia para que o país se retire do Conselho de Paz liderado pelos Estados Unidos, à medida que o sentimento antiamericano cresce em nações do Sudeste Asiático com populações muçulmanas significativas, após os ataques ao Irã realizados por Estados Unidos e Israel.
“Com este ataque ao Irã, o presidente dos Estados Unidos, Trump, desencadeou um conflito regional entre diversas forças”, afirmou o Conselho Ulama da Indonésia, principal órgão clerical muçulmano do país, em um comunicado divulgado no domingo.
O conselho instou o governo indonésio a se retirar do Conselho de Paz, criado para supervisionar o cessar-fogo em Gaza, alegando que ele “provavelmente será ineficaz para trazer verdadeira independência à Palestina”.
A Indonésia participou da reunião inaugural do Conselho de Paz, organizada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington, no mês passado, e anunciou o envio de cerca de 8 mil soldados para ajudar a manter a segurança em Gaza.
Outro grupo de 65 pessoas — incluindo professores e advogados — e 79 organizações da sociedade civil assinaram uma petição exigindo que a Indonésia se retire imediatamente do conselho de paz. Alguns membros do parlamento também pediram a retirada.
Governos árabes criticaram os ataques com mísseis e drones do Irã, de maioria xiita, contra estados árabes de maioria sunita no Golfo Pérsico, em resposta aos bombardeios dos Estados Unidos e de Israel, e os conflitos sectários são profundos na região.
Enquanto isso, o Sudeste Asiático, lar de uma grande população de sunitas moderados, foi menos afetado por conflitos sectários. Como a região não foi diretamente impactada pela série de ataques, muitos ali simpatizam com o Irã, por serem nações de maioria muçulmana.
Quase 90% dos cerca de 280 milhões de habitantes da Indonésia são muçulmanos. O recente ataque ao Irã alimentou o ressentimento público generalizado contra Israel e os Estados Unidos.
O parlamento da Malásia, onde cerca de 60% da população é muçulmana, condenou o ataque ao Irã em uma votação unânime na segunda-feira.
O primeiro-ministro malaio, Anwar Ibrahim, expressou suas condolências pelas mortes do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e de seus comandantes. O parlamentar Syahredzan Johan convocou seus colegas parlamentares a boicotarem eventos na Embaixada dos Estados Unidos em Kuala Lumpur, segundo o jornal “Straits Times”, de Cingapura.
O ressentimento em relação aos Estados Unidos, que apoiam Israel, intensificou-se na região quando o conflito entre Israel e o grupo militante palestino Hamas se agravou em outubro de 2023.
Boicotes a produtos fabricados nos Estados Unidos estão se tornando mais comuns, afetando os lucros de empresas locais que operam cafeterias Starbucks, por exemplo. Os boicotes vinham mostrando sinais de arrefecimento, mas o recente ataque ao Irã corre o risco de reacendê-los.
Muitos países do Sudeste Asiático adotam uma postura neutra em relação à diplomacia, especialmente por causa das disputas entre Estados Unidos e China. Um sentimento antiamericano mais forte provavelmente os afastará ainda mais de Washington diplomaticamente.
No entanto, Jacarta ainda não criticou os Estados Unidos por iniciarem uma guerra com o Irã.
“A Indonésia lamenta profundamente o fracasso das negociações entre os Estados Unidos e o Irã, que resultou na escalada militar no Oriente Médio”, afirmou uma publicação em uma rede social de uma conta oficial do governo.
Alguns analistas consideraram a declaração fraca, pois não culpa Washington pela guerra de forma contundente.
Fonte: Valor Econômico