A pergunta acima é a que mais recebi no último mês, como criador de conteúdo na internet sobre o Supremo Tribunal Federal.
Há dias, fiz um post intitulado “Sobre o banco Master…” e, assumindo o risco, acabei desagradando muito seguidores.
Talvez esperavam algum ataque ao STF, mas não o fiz por medo ou complacência, tão só porque me falta(va) a verdade, como pontuei no próprio vídeo.
Logo, o descontentamento desses seguidores não se deu em razão de meu conteúdo audiovisual, mas pelo fato de que possivelmente esperavam que eu contribuísse de alguma maneira, chancelando ou refutando as teses aventadas até o momento.
Essa foi uma das razões pelas quais decidi escrever este texto.
Não me dirijo, porém, aos jornalistas, tampouco pretendo apresentar reservas à liberdade de imprensa ou ao sigilo da fonte, o qual sem dúvidas é necessário instrumento dessa imprescindível garantia constitucional.
O meu propósito é – dentro de minhas muitas limitações – estabelecer uma reflexão sobre se, no país, há uma busca da verdade por boa parte dos jornalistas, ou se nós – os epectadores – estamos presos em ilusões.
Refiro-me às nossas ilusões não para propor a descrença no sistema, mas com base no que apreendi do livro VII d’A República de Platão sobre o conceito de verdade, a qual, segundo o filósofo, é a luz exterior, acessível apenas a quem se liberta das ilusões.
A procura pela verdade é um estudo, vale dizer, de diversas áreas, como filosofia, direito e, sobretudo, jornalismo.
A filosofia se debruça sobre vários conceitos e o da verdade é apenas um deles; isto é: a filosofia, antes de querer saber o que é a verdade, se ocupa em descobrir o sentido da vida, da morte, da existência humana, temas ainda mais intrigantes.
Já o operador do direito, busca a verdade principalmente quando estuda matérias relativas a processo, notadamente no direito processual penal, pelo qual é preciso proteger a liberdade do réu contra possíveis “falsas verdades”.
Vê-se, pois, que na filosofia e no direito a verdade pode ser um tema crucial, mas não o é sempre.
De forma distinta, a verdade é o coração do jornalismo. É o centro vital de onde o jornalismo extrai sentido. Aliás, a busca pela verdade é que distingue o jornalista de outros comunicadores. Por isso é impossível escrever sobre a verdade e não falar sobre o jornalismo.
A verdade, qualquer que seja a área de atuação, paira sobre dois pilares: a correspondência e a coerência.
Bertrand Russell, em “Os problemas da filosofia” (1912)[1], ensinou-nos que algo é verdadeiro se corresponde aos fatos tal como eles são no mundo; do contrário, estaremos diante de uma falsidade.
Em outro plano, embebido em Aristóteles e na “Fenomenologia do Espírito”, de Hegel, Brand Blanshard, em A natureza do pensamento (1939), escreveu que não basta a correspondência, pois é preciso também haver coerência na busca pela verdade. Em outras palavras, para ele, a verdade não depende de uma correspondência direta com o mundo, mas da consistência interna de um conjunto de crenças ou proposições[2].
Assim, para quem se pauta no binômio correspondência-coerência, a verdade é sistêmica, não pontual, logo não basta corresponder aos fatos, para ser verdade, precisa fazer sentido o que se propõe como fato.
Sem dúvidas, os jornalistas brasileiros deveriam moldar suas condutas nesse binômio da correspondência-coerência, mas uma boa parte não vem fazendo-o.
Uma parcela dos jornalistas brasileiros parece seguir a vertente pragmática (utilitarista) de busca da verdade, segundo a qual uma proposição é considerada verdadeira na medida em que atinja determinada finalidade. Essa forma de busca da verdade pode, assim, tornar-se uma falácia, pois facilmente manipulável por quem está apurando o fato e, no fim, não se buscará a verdade.
Dito de outro modo, o jornalista utilitarista utiliza a informação para manipular o público, corrigir “erros” e provocar respostas institucionais a qualquer custo. Neste último caso, se fosse um instrumento de pressão de autoridade exclusivamente em prol da coletividade, o jornalismo utilitarista poderia ser adequado à democracia brasileira, porém tal não ocorre em nosso país.
Ao revés, essa parte expressiva de jornalistas parece atuar como a caricata figura descrita por Kovach e Ressentiel do profissional da imprensa que parece pensar que “a verdade é alguma coisa que surge sozinha como o pão que cresce no forno”[3].
Ou seja, no Brasil, para muitos, buscar a verdade é valer-se de uma garantia constitucional (liberdade de imprensa) e de um importante instrumento dessa garantia (sigilo da fonte) para criarem muitas vezes uma percepção meramente indiciária, ou uma “quase-verdade”, que verdade não se pode dizer que é.
Há pelo menos vinte anos, boa parte dos jornalistas investigativos brasileiros se vale do imperioso sigilo da fonte como forma pragmática de busca da verdade, para aumentar lucros e egos, sem o compromisso com a verdade, que é o coração do jornalismo.
Em tempos de redes sociais e de uma sociedade politicamente polarizada, lucros e egos se traduzem em uma palavra: engajamento.
A busca pelo engajamento tomou, portanto, o lugar pela busca da verdade no Brasil e, nesse contexto, parte do jornalismo brasileiro passou a preferir o escândalo à verdade.
Escândalos acontecem apesar de jornalistas, o problema é que essa parcela utilitarista de profissionais da imprensa traz o escândalo à tona e, em vez de esclarecer, tumultua-se; ao invés de elucidar, prendem-se os espectadores em suas ilusões, provocando neles os sentimentos mais ignóbeis, como ódio, inveja e ganância.
Dessa maneira, esse jornalista utilitarista se vale de sua liberdade para ferir a do outro. Explico.
Sob o manto da liberdade de imprensa, essa parte da mídia utilitarista acaba por realizar uma verdadeira prisão platônica dos expectadores, uma vez que estes já não conseguem ser livres para saber qual a verdade no caso concreto e tomar sua decisão.
E nessa busca cega pela verdade, o que fazem os cativos expectadores? De dois caminhos, cabe-lhes seguir um: o da solidão da descrença em tudo; ou o do “jornalismo de alcunha”, a saber, os jornalistas “lavajatistas”, “lulistas”, “bolsonaristas”, “supremistas” etc.
Diante desse cenário, como responder à pergunta em epígrafe, que integra o título deste texto?
Como adiantei no – para uns, frustrante – vídeo “Sobre o banco Master…”, não há reposta ainda, uma vez que não há informações suficientes para se chegar à verdade, por mais que isso doa no âmago daqueles que buscam – como eu – a verdade absoluta, nua e crua.
De um lado, temos uma apuração feita pela jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo. No entanto, tal investigação não pode ser levada em consideração como a verdade absoluta, mas como um ponto de partida para melhor se investigar um suposto desvio ético de ministros.
Isso porque não se pode considerar como verdade fatos que são alegados por uma fonte única de informação, sem documentos, sem processo, sem outras instituições envolvidas (ex.: Polícia e Ministério Público), sob pena de se permitir o mesmo erro cometido durante a operação lava-jato, em que o jornalismo utilitarista explorou o espetáculo, tomou partido e criou, de forma utilitarista, um inconstitucional tribunal de exceção no país.
E digo isso sem pretender discutir o mérito dos processos criminais daquela época, mas tão somente a atuação de parte da mídia antes desses processos se iniciarem.
Em contraposição à tese da jornalista d’O Globo, temos notas oficiais do gabinete do ministro Alexandre de Moraes dizendo não serem verdade as afirmações feitas por ela. Notas que muitas vezes podem até ser coerentes, mas não responderam a todos os pontos apontados pela sigilosa fonte de Malu Gaspar.
Em meio a essa difícil busca pela verdade, restou ao ministro Dias Toffoli a decretação do sigilo na investigação como relator do “caso banco Master”. Decisão complexa, que fecha as portas ao jornalismo utilitarista, mas eleva a descrença com relação ao Poder Judiciário.
Alguns poderiam dizer que estamos exatamente diante do pensamento de Nietzsche no sentido de que as verdades são metáforas gastas que servem à vontade de poder[4], mas, no “caso do banco Master”, eu prefiro seguir o conceito de verdade de Monteiro Lobato, segundo o qual a “verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia”.[5]
No “caso do banco Master”, não é possível dizer que há uma verdade absoluta e tampouco uma mentira bem pregada.
Sigo tentando me libertar das ilusões e enxergar a luz lá fora.
[1] RUSSEL, Bertrand. “Os problemas da filosofia”. Traduzido por Jaimir Conte. Oxford University Press paperback, 1959.
[2] NORRY, Maria Josefina. La Teoria de la Coherencia em Blanshard. Apud In: SALTOR, Jorge E. (Complilador). Reflexiones em Torno al la Verdad. Tucumán – Argentina. Instituto de Epistemologia da Faculdade de Filosofia e Letras – UNT, 2005.
[3] KOVACH, Bill; RESSENTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo. O que os jornalistas devem saber o público deve exigir. Traduzido por de Wladir Dupont. Geração Editorial, 2004.
[4] NIETZSCHE, Friedrich. Sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral. Traduzido por Fernando de Moraes Barros. São Paulo: Hedra, 2008.
[5] LOBATO, Monteiro. Memórias da Emília, 2ª ed., São Paulo: Globo, 2009.
Fonte: Conjur