A sirene ainda ecoava pelo labirinto de vielas quando as redações começaram a disparar notas: “suspeito morre em confronto com a PM em Paraisópolis”. Foi quinta-feira, 10 de julho. Quem estava na rua viu outra história, mas só conseguiu prová-la quando as imagens das bodycams vieram à tona, quatro dias depois. Elas mostram Igor Oliveira de Moraes Santos, 24 anos, ajoelhado, mãos na cabeça, rendido, antes de levar os tiros que calaram sua chance de responder na Justiça pelos atos que, dizem, teria cometido. Dois policiais foram presos em flagrante; o governador prometeu “tolerância zero” para desvios.
Durante anos, operações em territórios em conflito se apoiaram em versões únicas, muitas vezes a divulgada no boletim policial. Desta vez, a câmera grudada no colete virou protagonista da apuração jornalística: o que começou como nota de rodapé virou manchete exigindo investigação por execução sumária. Os mais diversos veículos da cobertura dos incidentes correram para atualizar textos, rever manchetes, ouvir perícia, entrevistar familiares. A imprensa fez o dever de casa, mas foi obrigada pela prova audiovisual, lição de que transparência, quando existe, muda a narrativa e salva vidas.
O caso de Igor não é exceção: em 2024, 6134 pessoas morreram em operações policiais no Brasil, 17 todos os dias. São Paulo respondeu por 813 dessas mortes, salto de 61% em relação a 2023, segundo dados do Mapa da Segurança Pública do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Quando olhamos só para adolescentes e jovens, o retrato é ainda mais cruel: no estado, um garoto entre 10 e 19 anos morreu a cada cinco dias em 2024, num ambiente de afrouxamento do controle sobre as câmeras corporais.
Fonte: Uol