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Carta inédita de 1932 revela ocupação da Fazenda Santa Úrsula por tropas de Vargas

Carta inédita de 1932 revela ocupação da Fazenda Santa Úrsula por tropas de Vargas
Fazenda Santa Úrsula: sob a posse da mesma família desde sua fundação


Guardada a vista, mas jamais publicada em livros de história, uma carta datada de setembro de 1932 revela aspectos de como foram os capítulos finais da Revolução Constitucionalista. O documento fica em exposição na entrada da sede da bicentenária Fazenda Santa Úrsula, em Jaguariúna, e é assinado por soldados do Exército do Rio de Janeiro, que avançavam pelo interior de São Paulo.

A histórica propriedade, que já abrigou personalidades como Rui Barbosa e o imperador Dom Pedro II, também serviu de estadia para tenentes das tropas de Getúlio Vargas, no período em que se intensificavam o cerco à cidade de Campinas, a um mês da rendição dos paulistas.

Além do manuscrito original, integram ao pequeno acervo de peças da época, armamentos, utensílios de guerra e objetos pessoais também das Forças Paulistas. A historiadora e memorialista de Jaguariúna, Maria Abigail Nogueira Moraes Ziggiatti, é uma das responsáveis pela preservação desse patrimônio histórico.

A Fazenda Santa Úrsula é a única propriedade em Jaguariúna que permanece sob a posse da mesma família desde sua fundação. Esse é um dos motivos para que o imenso casarão com mais de 30 cômodos, preserve com afeto e cuidado constante aos utensílios ali mantidos. A família Nogueira está em sua 9ª geração.

 

Fazenda Santa Úrsula: sob a posse da mesma família desde sua fundação

 

“Minha avó Úrsula foi alertada a deixar a fazenda por conta dos bombardeios que ocorriam naqueles dias. Um dos administradores do local orientou a família a guardarem objetos de valor no sótão e viajar para São Paulo com aos filhos”.

A chegada dos soldados da tropa getulista foi cordial, sem que houvesse saques ou móveis quebrados, relata também a historiadora. Dentre os três homens que assinam a carta de agradecimento, estava um engenheiro do Ministério da Fazenda em missão com o exército carioca, um tenente de nome Pedro Álvares e outro militar chamado Ayes Barroso.

Uma das únicas coisas que a família de Celso Camargo Moraes sentiu falta foi um baú com roupas infantis, dos filhos do casal. Relatado à época por quem permaneceu com os militares na fazenda, a justificativa para levar tais pequenas peças seria para “mostrar às esposas cariocas”. Talvez, sim, preparar o enxoval dos casais.

Ao final do texto, os militares deixam um número telefônico e um endereço no Rio, mas nunca mais houve qualquer contato após o período de lutas. A carta de agradecimento foi escrita no dia 28 de setembro – um dia antes da chegada do navio alemão General Osório, trazendo da Europa material bélico para reequipar as tropas do governo federal. O cerco se fechava sobre São Paulo.

 

Carta de agradecimento foi escrita no dia 28 de setembro de 1932

 

A Carta

Ilustríssimo Sr. Celso Camargo Moraes.

Assim como a ordem e o conforto reinantes nesta fazenda, a tornam em residência de distinção de seus proprietários. Os meus sentimentos pela luta inglória em que se debatem próprios irmãos, vertendo generoso sangue brasileiro.

Lamentando sinceramente que a visita seja em ocasião tão imprópria, levanto meus votos ao Altíssimo para que desça novamente a paz ao sei da família brasileira. Que possam ser guias com inteira felicidade nos destinos das vidas das suas crianças.

Queira aceitar e transmitir à Excelentíssima Senhora, a quem beijo as mãos com o mais profundo respeito. Meus sinceros cumprimentos.

 

A BASE EM JAGUARY

Diferentemente da Santa Úrsula, a Fazenda da Barra, também em Jaguariúna, foi invadida por soldados que vinham de Minas Gerais, com a formação de um quartel de observação. Eles depredaram a fazenda e deixaram marcas que até hoje estão gravadas nas paredes da fazenda, como as frases pintadas no casarão, com palavras contra os paulistas e os soldados constitucionalistas.

O então Distrito de Jaguary fazia parte do setor Leste, chamado de Frente Mineira ou Zona Mogiana, e a principal meta era impedir os soldados que vinham por Minas Gerais de chegar a São Paulo. O distrito foi muito importante e teve combates até o final dos conflitos.

A Revolução Constitucionalista, que se estendeu por quase três meses, de 9 de julho a 2 de outubro de 1932, foi a resposta de São Paulo à centralização do poder pelo então presidente Getúlio Vargas, e marcou o maior movimento cívico armado da história paulista.

Apesar da derrota militar, o movimento conquistou vitórias políticas, como a convocação da Assembleia Constituinte e a promulgação da Constituição de 1934.

 

Fazenda Santa Úrsula é um patrimônio cultural e histórico, não apenas de Jaguariúna, mas do Brasil

 

PRESERVAÇÃO

Atualmente, Maria Abigail trabalha na manutenção e pesquisa de documentos que integram o acervo da família do Barão de Ataliba Nogueira. São inúmeras fotografias e dezenas de documentos de época. Muitos deles estão sendo preservados nos acervos da Casa da Memória Padre Gomes, um notável espaço destinado à recuperação e a preservação da memória de Jaguariúna.

O acervo da família inclui registros fotográficos raríssimos, feitos por um antigo guarda-livros apaixonado por fotografia, além de manuscritos e memórias de Camila Barbosa de Oliveira, neta do barão.

“A Fazenda Santa Úrsula é um patrimônio cultural e histórico, não apenas de Jaguariúna, mas do Brasil”, concluiu a historiadora.



Fonte: Hora Campinas

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