Nos capítulos finais de “Velho Chico”, última novela assinada por Benedito Ruy Barbosa na TV Globo, o coronel Saruê, personagem de Antonio Fagundes, ao perder o filho, Martim, vivido por Lee Taylor, arranca a peruca e atira-se nas águas do rio São Francisco numa tentativa vã de resgatá-lo.
Ao sair das águas, com os cabelos brancos, vestido em farrapos, andando pelas dunas, em meio às turbinas eólicas, vê-se diante de seu duplo com a mesma peruca acaju e o terno colorido do qual ele havia se despido. Tenta, sem sucesso, enfrentá-lo, derrotá-lo, numa batalha trágica e patética.
A cena que remete a um dos momentos mais emblemáticos da dramaturgia universal —aquela em que rei Lear, já despido de sua realeza, caminha nu sobre a tempestade, reencontrando sua humanidade— sintetiza também a obra de Benedito Ruy Barbosa, morto nesta terça-feira. Um autor que narrou, no folhetim televisivo, a formação do Brasil moderno.
Essa trajetória começa na década de 1970, com novelas rurais como “Meu Pedacinho de Chão”, exibida entre 1971 e 1972, “À Sombra dos Laranjais”, de 1977, e “Cabocla”, de 1979. Nelas, vemos em formação elementos que seriam maturados ao longo das décadas seguintes.
As disputas políticas locais entre forças que representam a modernidade e o atraso —algo muito presente no Brasil da modernização autoritária da ditadura— e os amores impossíveis entre os herdeiros desses clãs políticos, o elemento shakesperiano, claramente inspirado em “Romeu e Julieta”, que seria fartamente explorado em sua dramaturgia.
Na década seguinte, a imigração entra como elemento na sua narrativa. Em 1981, o autor faz sua primeira grande saga, “Os Imigrantes”. A novela, exibida pela TV Bandeirantes, conta a história de três Antonios —um italiano, um português e um espanhol — que vêm tentar a vida no novo mundo. São dessa fase também “Vida Nova”, de 1988, que conta a vida dos imigrantes no bairro do Bexiga em 1945.
A novela foi, naquele momento, a última trama de Benedito na Globo. Após ter a sinopse de “Pantanal” recusada, ele mudou para a TV Manchete, dando início a uma nova fase, com grandes sagas de migrantes e imigrantes no Brasil profundo.
Em “Pantanal”, o autor acompanha a família de Zé Leôncio, personagem de Cláudio Marzo, que chega ao Mato Grosso do Sul para criar gado. Na novela, o autor faz algo atípico na dramaturgia e mesmo na literatura brasileira —o choque de civilizações.
Num Brasil que havia se industrializado e urbanizado, tornando-se uma das maiores —e mais desiguais— economias do mundo, convivem e chocam-se a natureza do Pantanal e sua cultura, representada pelo Velho do Rio —Marzo— e Juma Marruá, personagem de Cristiana Oliveira, e o Brasil urbano e moderno, de Jove, vivido por Marcos Winter, e Madeleine, papel de Ítala Nandi. A novela ganhou um remake de grande repercussão em 2022.
O sucesso de “Pantanal”, que incomodou a TV Globo em 1990, o levou de volta à emissora. Em 1993, ele estreou no horário nobre com “Renascer”, um dos maiores sucessos de sua carreira.
Na zona do cacau, na Bahia, José Inocêncio, personagem vivido por Leonardo Vieira, na fase jovem, e depois por Antonio Fagundes, finca seu facão aos pés de um jequitibá-rei, dizendo que jamais morrerá “nem de morte morrida”, “nem de morte matada”.
Após sobreviver a uma emboscada, torna-se uma figura mítica, mas perde, no parto do quarto filho, João Pedro —personagem de Marcos Palmeira—, a sua amada Maria Santa, razão pela qual passa a rejeitar o rapaz. Anos depois, a chegada de Mariana, personagem de Adriana Esteves, coloca pai e filho em conflito pelo amor da mesma mulher, que deseja vingar o assassinato do avô, atribuído a José Inocêncio.
Para além dos elementos épicos, temos aqui novos elementos shakespearianos que remetem à Guerra das Rosas, explorada fartamente por Shakespeare em seus dramas históricos, como “Ricardo 3º”, e uma trama clássica da literatura universal —o pacto com o diabo, sintetizado no demônio que José Inocêncio carrega na garrafa.
Em “Renascer”, o autor dá mais espaço a temas urbanos contemporâneos, como a questão da intersexualidade e das crianças moradoras de ruas. É o encontro do Brasil rural com o Brasil urbano que veremos naquela que é considerada sua melhor novela, “O Rei do Gado”.
Exibida em 1996, a trama conta a saga de duas famílias de imigrantes italianos, os Berdinazzi e os Mezenga, em dois momentos da história brasileira —os anos 1940, da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, e os anos 1990.
Na primeira fase, acompanhamos o amor proibido de Giovanna Berdinazzi, vivida por Letícia Spiller, e Enrico Mezenga, vivido por Leonardo Brício, entre as plantações de café. O motivo do ódio entre as duas famílias? O típico das famílias italianas: a marcação da cerca. Quem descende de italianos, sabe.
O casal foge e Giovanna dará à luz a Bruno Mezenga, vivido por Antonio Fagundes, que se apaixona pela boia-fria Luana, papel de Patricia Pillar, sem saber que ela também é uma Berdinazzi, sobrinha de seu tio, Jeremias, numa grandiosa interpretação de Raul Cortez.
Em “O Rei do Gado”, o autor trouxe, pela primeira vez, a questão dos sem-terra para a TV, discutiu corrupção política, violência contra a mulher e apresentou ao público o moderno agronegócio brasileiro.
A história, porém, se encerra com um regresso às fazendas dos Berdinazzi e dos Mezenga e o rei do gado voltando às plantações de café.
Seu último grande sucesso, “Terra Nostra”, exibida em 1999, também volta aos cafezais. Conta a história de amor de Giuliana, vivida por Ana Paula Arósio, e Matteo, interpretado por Thiago Lacerda, dois imigrantes italianos que se apaixonaram no navio que os traria para trabalhar nas propriedades da aristocracia paulista.
A história se passava numa São Paulo que começava a se urbanizar e a se fazer grande, e que seria narrada a partir de então, como o Brasil profundo, em seus conflitos políticos, lendas, amores, desamores, ódios, paixões e toda humanidade e sensibilidade por Benedito Ruy Barbosa.
Fonte: Uol