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Ansiedade e autismo: 3 pontos para entender por que os transtornos se entrelaçam

“Viver em um mundo neurotípico é difícil”, diz mulher que descobriu autismo aos 42 anos
Livro aborda dificuldades de pessoas autistas enfrentando um mundo pouco aberto à neurodiversidade (Ricardo Davino/Veja Saúde)



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Até metade dos adultos com transtorno do espectro autista (TEA) convivem com níveis de ansiedade que prejudicam o dia a dia, estima um estudo norte-americano realizado há mais de uma década. Desde então, o diagnóstico de TEA têm sido cada vez mais comum nos consultórios — e, junto com ele, a suspeita de que os pacientes também tenham outros transtornos.

A avaliação é um desafio até mesmo para os especialistas e foi tema de uma palestra no Congresso sobre Cérebro, Comportamento e Emoções (Congresso Brain), realizado em Porto Alegre (RS) entre os dias 3 e 6 de junho.

O que profissionais da saúde propõem é uma abordagem transdiagnóstica para os casos. Isto é, a ansiedade nem sempre é um diagnóstico isolado do TEA. Muitas vezes, ela pode ser uma resposta natural de pessoas divergentes que se veem em conflito entre as expectativas e demandas do mundo à sua volta e a forma como conseguem processar a situação.

Por isso, o sintoma precisa ser avaliado de forma abrangente e deve-se trabalhar para identificar a causa dessa e de outras manifestações comuns a diferentes transtornos.

Adultos com transtorno do espectro autista exigem um olhar especial, já que muitos não tiveram diagnóstico na juventude e, portanto, não receberam tratamento adequado para suas questões.

Segundo a psiquiatra Malu Joyce de Amorim Macedo, é preciso ter atenção aos processos de mascaramento da condição que alguns pacientes apresentam e para a dificuldade que eles tem de reconhecer e descrever emoções e sensações.

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“Quando falamos em ansiedade e autismo, estamos falando sobre sobreposição”, explicou a doutoranda em psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em apresentação no Congresso. “Muitas vezes, um adulto que chega para a avaliação ou mesmo para a psicoterapia ainda não está entendendo o que ele realmente está sentindo”.

Abaixo, conheça três termos técnicos que ajudam a entender as dificuldades de adultos autistas em lidar com a ansiedade.

1. Mascaramento

É como uma “camuflagem social“. Há uma tentativa da pessoa neurodivergente esconder traços da condição a fim de ser aceita por um grupo ou aprovada em determinada situação.

Esse hábito de “mascarar” os sinais do transtorno pode vir associado à ansiedade, porque o indivíduo chega a um estado de hipervigilância sobre seus próprios comportamentos, levando até a uma exaustão emocional.

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2. Alexitimia

É o nome técnico para a dificuldade de reconhecer, entender e nomear as próprias emoções. É um desafio relativamente comum, mas cerca de 10 vezes mais frequente em pessoas com o transtorno do espectro autista.

A falta de ferramentas para lidar com o emaranhado de emoções ao longo da vida pode levar a quadros de profunda tristeza e frustração, gerando sintomas ansiosos e depressivos.

3. Interocepção alterada

Além de ter dificuldades para reconhecer as emoções, para quem está no espectro autista pode ser um desafio interpretar corretamente os sinais que o próprio corpo dá. Ou seja, as pessoas podem ter uma percepção muito sensível a fome, dor, temperatura ou batimentos cardíacos — ou, então, não ser capaz de notá-los.

Essa alteração pode ser um gatilho para a desregulação emocional, desencadeando crises de ansiedade ou até mesmo pânico.

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Como lidar

É preciso avaliar o indivíduo de forma integrada. “Os sintomas do autismo passam pela interocepção e pela alexitimia para gerar os sintomas ansiosos e depressivos”, explica Macedo. “Isso corrobora a ideia de pensar nos sintomas ansiosos de forma mais dimensional e transdiagnóstica.”

Em relação aos tratamentos, a psiquiatra Alice Castro Menezes Xavier, pós-doutoranda da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), resumiu, em apresentação no congresso, o que funciona melhor para esse perfil de paciente. Psicoterapias precisam de adaptações e algumas classes de medicamentos podem ter uma resposta menor nesses pacientes.

“A TCC [terapia cognitivo-comportamental] adaptada se mostra superior na eficácia e no controle prolongado dos sintomas”, informa Xavier. “E os benefícios não ficam restritos aos sintomas nucleares da ansiedade. Também há vantagens para a [diminuição da] irritabilidade e a regulação emocional como um todo, também na rigidez cognitiva.”

A adaptação da TCC inclui uso de técnicas visuais, envolvimento dos interesses (hiperfocos) para aumentar o engajamento e organização em módulos claros para o reconhecimento das emoções e das habilidade sociais.

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O mindfulness, que consiste em técnicas de atenção plena à respiração e ao momento presente, também pode ser um aliado para adultos autistas de nível 1 de suporte (alto funcionamento).

Em relação ao tratamento farmacológico, Xavier destaca que é recomendado evitar a polimedicação e que, na fase adulta, indivíduos com TEA podem apresentar maior sensibilidade a efeitos adversos, como piora da concentração, inquietação e alterações gastrointestinais. Além disso, cérebros neurodivergentes podem ter menor resposta ao uso de inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS).

* A repórter viajou à Porto Alegre à convite da organização do Congresso sobre Cérebro, Comportamento e Emoções (Congresso Brain)



Fonte: Saúde Abril

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