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A saga dos judeus da Mooca – 29/12/2025 – Andanças na metrópole

Pessoas tocam Torá, livros sagrados do judaismo, em Tel Aviv - Hannah McKay/Reuters


Quando se fala nas primeiras comunidades judaicas de São Paulo, normalmente se pensa no bairro do Bom Retiro e, em menor grau, no Cambuci. Mas existe um outro lugar onde ela foi bem expressiva: a Mooca, na zona leste. Os judeus começaram a chegar lá na primeira década do século passado vindos principalmente do Líbano, então parte do Império Otomano. Não falavam hebraico ou ídiche, mas a língua árabe, e pertenciam ao grupo cultural sefardita, com origem na Península Ibérica.

A comunidade se juntou em torno da rua Odorico Mendes, onde até hoje existem duas sinagogas, ambas dos anos 1930, a Israelita Brasileira e a Sociedade União Israelita Paulista. Reunia cerca de 40 sobrenomes, como Rabia, Simantob, Zeitune, Nigri, Cohen e Politi e algumas centenas de integrantes. Eles trabalhavam principalmente como colchoeiros, fabricantes de colchões e acolchoados, e como mascates. Era gente muito pobre, com baixa escolaridade e com fortes vínculos religiosos.

Segundo a pesquisadora da USP Adriana Abuhab Bialski, estudiosa dos judeus do Líbano, eles deixaram o Oriente Médio por motivos econômicos e não devido à perseguição religiosa. Uma crise abatia a região na transição do domínio otomano para o francês. Havia carestia, muita incerteza política e a obrigatoriedade de alistamento militar, do qual os jovens queriam fugir. O Brasil já recebia muitos libaneses cristãos e acabou sendo uma opção atrativa para os judeus.

Os primeiros judeus a chegar no bairro acabavam atraindo parentes e conhecidos que encontravam aluguéis baratos e um país cheio de oportunidades. Outra vantagem era a proximidade da linha do trem. Por outro lado tinham que conviver com as enchentes constantes do rio Tamanduateí. Uma parte desse grupo sefardita ficou em Santos. Alguns se instalaram no Rio de Janeiro.

Adriana conta que embora fossem conservadores e obedecessem firmemente as leis judaicas, os homens não se vestiam de preto nem usavam chapéus. Seguiam, porém, as regras da alimentação kosher, que exige supervisão rabínica. Também viviam num sistema patriarcal rígido, com casamentos arranjados com mulheres muito jovens.

A comunidade sefardita em São Paulo era reduzida. Os judeus do Bom Retiro pertenciam ao grupo asquenaze, com origem na Europa Central e Oriental, assim como a maioria do Cambuci. Falavam ídiche, idioma escrito com o alfabeto hebraico e que mistura na fala o alemão, o hebraico e línguas eslavas. Por causa de diferenças culturais, o pessoal da Mooca, de origem árabe, não se integrava com o do Bom Retiro.

O fluxo de judeus libaneses para a Mooca perdurou até o início da década de 1930. Os filhos dos primeiros imigrantes estudaram em colégios públicos do bairro já que a comunidade não conseguiu erguer uma escola própria. Já a segunda geração falava português e conseguiu frequentar universidades.

Hoje o bairro tem uma comunidade judaica pequena e dispersa que não mora mais na rua Odorico Mendes ou na Dom Bosco. Os descendentes dos primeiros libaneses, assim como aconteceu com muitos judeus do Bom Retiro, foram morar, a partir da década de 1960, em outros bairros, principalmente Higienópolis, onde fundaram, em 1971, na rua Piauí, a sinagoga Congregação Monte Sinai, cujo primeiro presidente foi Assilan Meyer Nigri. As velhas sinagogas da Mooca só têm serviços religiosos eventuais.

Uma exposição na Unibes Cultural concebida pelas pesquisadoras Adriana Abuhab Bialski e Myriam Szwarcbart mostra a saga dessa comunidade pouco conhecida. Chama-se “Mooca Judaica – Histórias e Memórias de uma Comunidade” e é um projeto que envolveu 33 entrevistas e mostra fotografias e objetos. Ela teve uma primeira temporada em novembro e dezembro e volta a ficar em cartaz entre o final de janeiro e março.

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Fonte: Uol

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